Carmen Vasconcelos | Redação CORREIO
Marisqueira desde criança, Jaciara Oliveira Cruz, 52 anos, já não pode mais recolher peguari, ostra, aratu esarnambi. Não que lhe faltem forças, vitalidade ou vontade de voltar a contribuir com o sustento da família. Há seis anos, a senhora luta com uma infecção de pele que começou com um pequeno caroço sem grande importância. Hoje, a erisipela se transformou em úlcera, dificultando sua locomoção. Quando questionada sobre onde poderia ter contraído a bactéria, ela aponta a direção do mangue com a cabeça.

Banho perigoso: águas da baía provocaram uma
série de problemas de saúde na comunidade de Ilha de Maré
Foto: Marina Silva
A situação de dona Jaciara não é única. Na verdade, na comunidade de Ilha de Maré, difícil é encontrar quem não tenha um caso de doença ou alergia de pele, cansaço ou dificuldade respiratória. De tão grave, o quadro de saúde dos moradores locais é objeto de uma investigação conjunta entre o Ministério Público (MP), a Secretaria Estadual do MeioAmbiente (Sema), o Instituto do Meio Ambiente (IMA) e a Secretaria Estadual de Saúde (Sesab).
A investigação deve oferecer mais dados para o inquérito civil aberto pelo MP há um ano, mas que - até o presente momento - ainda não se reverteu em ações efetivas em favor da população e do meio ambiente. As suspeitas pairam sobre a falta de tratamento do esgotamento sanitário das áreas circunvizinhas, as indústrias localizadas no entorno e o Porto de Aratu, onde há o transporte de produtos químicos e o descarte de substâncias usadas na limpeza dos porões dos navios.
Plano
Segundo a coordenadora do Programa de Gestão Integrada da Baía de Todos os Santos do IMA, Érica Campos, na sua primeira fase, o trabalho contemplará o lado leste do golfo, onde há um povoamento maior e grandes pontos de contaminação pela ação industrial. “Já finalizamos o plano de análise de risco à saúde humana, que contou com o apoio da Fundação Oswaldo Cruz, do Rio de Janeiro. Agora estamos estabelecendo prioridades para buscar os recursos, uma vez que a proposta envolve muito dinheiro”, esclarece a representante do instituto.
Para se ter uma ideia do custo, o IMA estima que a primeira fase vai necessitar de cerca de R$ 3 milhões, enquanto o projeto todo deve custar mais de R$ 10 milhões. Érica Campos lembra ainda que a execução do trabalho não pode acontecer sem a parceria direta dos órgãos públicos de saúde, nas esferas municipais e estaduais, uma vez que o levantamento pretende determinar a cadeia causal de contaminação de toda a baía.

O pescador Ernandes Cardoso Lopes, o Djalma,
mostra concha de mariscos contaminados na baía
Foto: Marina Silva
Para os órgãos envolvidos, a existência desse planejamento já é um avanço, que pode colaborar significativamente para o aprofundamento de estudos sobre a saúde da população local, além de poder orientar políticas públicas. “Estamos muito confiantes que a proposta possa ser contemplada em duas frentes, paralelamente: o controle ambiental e a assistência à saúde”, explica ela.
Risco que paira na atmosfera
Os poluentes também estão presentes na atmosfera da Ilha de Maré, onde partículas em suspensão espalham odores fortes, fazendo com que muitos pescadores se queixemda qualidade do ar e do mau cheiro exalado. O pescador e líder comunitário Ernandes Cardoso Lopes, mais conhecido como Djalma, lembra com saudades do tempo em que a ilha não tinha a vizinhança tão industrializada. “Tenho um filho que, depois de anos na lida como pescador, foi para o continente trabalhar numa firma, pois toda vez que entrava na água, sofria com uma coceira e uns caroços na perna”, lamenta Djalma.
A poluição não atinge apenas pescadores e marisqueiras, mas também a própria pescaria, ameaçada na quantidade e na qualidade disponível. Na localidade de Bananeiras, mariscos como saupiro- vovô, perna-de-moça e o tapu-cavalo desapareceram. “Era um tempo feliz, quando, numa noite, era comum trazer 200kg de peixe para a terra. Hoje, se alguém consegue dez quilos, é motivo de comemoração”, lamenta.
Comunidade no esquecimento
Imortalizada pelos versos de Walmir Lima na voz de Alcione (Ah, eu vim de Ilha de Maré minha senhora/ Pra fazer samba na Lavagem do Bonfim), a Ilha de Maré é parte integrante da capital baiana. No entanto, a falta de contato por terra com o continente torna a localidade carente da atenção dos poderes públicos. Para chegar lá, só de barco, em travessias feitas nos terminais de São Tomé de Paripe ou na Enseada de Caboto. O trajeto dura cerca de 30 minutos e a tarifa de embarque varia entre R$ 2 e R$ 4.

Desembarque ainda é feito na água,
mas prefeitura promete construir atracadouro
Foto: Marina Silva
Quaisquer que sejam as opções, os viajantes se deparam com a falta de ancoradouros, que forçam um desembarque bem molhado (em algumas localidades, se desce da embarcação com água pelo quadril) até as praias como Itamoabo, Bananeiras, das Neves, Praia Grande, de Santana e do Botelho ou Oratório de Maré. A promessa da prefeitura de Salvador é que, até dezembro deste ano, sejam inaugurados os terminais marítimos de Ilha de Maré e Praia Grande e o de Santana. A estimativa é que o primeiro conte com uma estrutura de 200m de comprimento. Já o segundo terá 270m.
Toda a economia da ilha é voltada para a agricultura familiar, a pesca e o artesanato, principalmente para a confecção das rendas de bilro, que guardam as origens das tradições lusitanas. Embora seja possuidora de um cenário belíssimo, o turismo de Maré carece muito de estrutura e investimento.
Descaso na saúde
Durante muito tempo, a marisqueira Maria José Bonfim, 58 anos, lembra que não podia entrar no mangue sem sofrer com os incômodos provocados pela candidíase. Sem poder abrir mão do precioso tempo que passava no terreno molhado, o jeito era ter paciência e esperar a oportunidade de ir até a sede da capital para poder fazer o tratamento ginecológico. “Tinha vezes que o ardor para urinar era insuportável, mas só podia fazer exame e comprar remédio quando ia para a cidade”, lembra.

Por falta de médico, Maria José Bonfim teve que vir a Salvador
Foto: Marina Silva
Em Ilha de Maré, junto com a poluição se aliam as más condições de trabalho e a falta de assistência básica em saúde. Segundo a promotora titular da 6ª Promotoria de Justiça do Meio Ambiente, Cristina Seixas, a desassistência é, na realidade, uma queixa generalizada das comunidades. “O papel do Ministério Público é capitanear o diálogo desses órgãos e incentivar ações para a solução dos problemas apresentados”, diz.
Outra fonte suspeita de contaminação é a água doce disponível na localidade. Segundo a coordenadora de saúde ambiental da Vigilância Sanitária do estado, Elca Maltez, testes para avaliar a qualidade da água estão sendo feitos em diversos pontos da localidade. Para ela, o ideal seria que houvesse um plano de prevenção dos contaminantes.
Além do estado, a prefeitura de Salvador deverá implementar medidas definidas pelo grupo. O Executivo municipal, inclusive, reconhece as deficiências no atendimento à população. Afinal, no único posto de saúde local não há médicos.
Em nota ao CORREIO, a Secretaria Municipal de Saúde afirma que já foi realizada uma seleção de profissionais em regime especial, e que, no final deste ano, haverá concurso público para contratação de médicos. Segundo a SMS, o Programa de Saúde da Família da ilha conta com duas equipes, com um dentista, quatro auxiliares de enfermagem, duas enfermeiras e sete agentes comunitários.
Onde ir
- Ponto de chegada das procissões marítimas, a Praia de Itamoabo é um convite para o mergulho, principalmente por possuir águas transparentes, com temperatura morna. No local é possível ainda encontrar piscinas naturais e uma larga faixa de areia. No povoado de Itamoabo, está a Igreja de Santana, do século XIX.
- Na Praia das Neves, localizada ao sul da Praia de Itamoabo, fica a Capela de Nossa Senhora das Neves. Erguida em estilo colonial, sua construção data do século XVI. Além dos atrativos históricos, a praia possui águas calmas, ótimas para mergulho e esportes aquáticos.
- No Oratório de Maré - que fica a 1km da Praia das Neves - está o trecho mais movimentado da ilha, com a constante presença de embarcações particulares e de turismo, que aproveitam a estrutura de restaurante no local. Também conhecida como Botelho, a praia conta com uma das mais belas vistas panorâmicas da Baía de Todos os Santos.
(Notícia publicada na edição impressa do dia 28/09/2009 do CORREIO)